Logo boletim final
Boletim Especial n. 6 - 09/10/2020



No Boletim n. 06, Karina de França Silva Valle (UFABC) discorre sobre como a face da COVID-19 é de uma mulher negra, desde a primeira vítima fatal até os dados estatísticos que mostram a intensificação das vulnerabilidades sociais, econômicas e raciais. Articulando as reflexões com intelectuais como Lélia Gonzalez, Patricia Hill Collins e Achille Mbembe, a autora trafega pelas imbricações entre relações raciais e de exploração no país e os efeitos desiguais da pandemia.

________________________________________

Download do boletim em PDF

A face da COVID-19 é a face de uma mulher negra


Por Karina de França Silva Valle

Imagem: arte visual desenvolvida por Laíza Ferreira, uso autorizado para a publicação.


Em tempos de pandemia da COVID-19 – entre frases de descaso, a inexistência de uma política efetiva pela vida e o desprezo pela população por parte do Governo Federal associados à não paralisação da economia mesmo com a morte acelerada dos brasileiros –, deixa-se claro um discurso em que o capital prevalece sobre vida. O coronavírus radicalizou as desigualdades sociais e escancarou a violência interseccional na sociedade brasileira.

No célebre texto de Lélia Gonzalez de 1984, Racismo e sexismo na cultura brasileira, a intelectual nos aponta a dupla violência, que funciona em caráter sistêmico e que devasta a mulher negra brasileira. Gonzalez (2019) nos mostra, nesta obra, uma função exercida majoritariamente por mulheres de cor no Brasil e como essa atividade está interligada às más condições e à contínua desumanização dada para quem a pratica. “Quanto à doméstica, ela nada mais é do que a mucama permitida, a prestação de bens e serviços, ou seja, o burro de carga que carrega sua própria família e a dos outros nas costas.” (Gonzalez, 2019, p. 244).

Dada a tragédia e o revelar dela, nada mais sabido que a face da COVID-19 no Brasil tenha o rosto de uma mulher negra: uma empregada doméstica. Cleonice Gonçalves, 63 anos, a primeira vítima registrada no Brasil, foi exposta ao vírus por meio de seus patrões que chegaram de viagem realizada ao exterior. Infectados pelo vírus, obrigaram Cleonice a servi-los. Enquanto tiveram toda a sorte de assistência, Cleonice adoecia. No dia em que eles recebem os resultados dos exames que confirmam o fato de eles realmente estarem com o vírus, Cleonice falece.

Cleonice, um corpo marcado por ações, gestos e condutas, que se comparados aos tempos coloniais, pouca coisa mudou.

Nos amparando novamente aos escritos de Lélia Gonzalez (2019, p. 246-247), um elemento basilar é a ideia de o racismo agir por meio da opressão, pois “tem por objetivo próximo a instauração da submissão psicológica através do medo”.

Podemos pensar na tristeza de Cleonice em seus últimos dias. Entre cuidar de “seus senhores”, anulando-se, e o terror de perder o seu emprego caso saísse daquela casa.

O que opera nessas relações servis? O que faz um casal impedir uma pessoa que trabalha em sua casa de se cuidar? Impedir de cuidar da própria saúde e assim salvar sua vida?

Mbembe (2018) nos fala do dessemelhante, do que não é próximo, daquele com quem não nos importamos, pois o corpo negro é o polo negativo do mundo. Esse polo oriundo de fabulações e de construções sociais para o assentamento da dominação. O autor ainda nos demonstra que, enquanto dimensão fundamental para fins econômicos e sustentação dos brancos e do seu poder, o racismo exercido no corpo negro é o cerne do êxito do capitalismo.

Produto de um maquinário social e técnico indissociável do capitalismo, de sua emergência e globalização, esse termo foi inventado para significar exclusão embrutecimento e degradação, ou seja, um limite sempre conjurado e abominado. Humilhado e profundamente desonrado, o negro é, na ordem da modernidade, o único de todos os humanos cuja carne foi transformada em coisa e o espírito em mercadoria – a cripta viva do capital. (MBEMBE, 2018, p. 21)

Nas palavras proferidas por Débora Diniz, em 26 de agosto de 2020, em um encontro virtual, organizado por uma instituição pública de ensino superior paulista[1], o racismo e a escravidão, tidos como elementos na experiência histórica brasileira, atualizam-se na pandemia. As desigualdades de raça, classe e gênero intensificam a ausência do cuidado. Diniz nos chama a atenção para o sistema histórico de produção e reprodução.

Conforme dados do IPEA, em pesquisa realizada em 2019, o número de empregadas domésticas no Brasil naquele momento era de 6,5 milhões. Segundo o Instituto Locomotiva, em pesquisa realizada em abril de 2020, dentre os trabalhadores domésticos que são inseridos em atividades como mensalistas, motoristas, jardineiros, cuidadoras, diaristas, 92% dessas atividades são exercidas por mulheres e, desse percentual, grande parte são mulheres de cor vindas de famílias pobres. No atual contexto da pandemia, ainda segundo os dados do Instituto Locomotiva, 39% das diaristas foram dispensadas na pandemia com pagamento, 23% trabalham normalmente, 39% foram dispensadas sem pagamento. Quanto às mensalistas, 48% foram dispensadas com pagamento, 13% dispensadas sem pagamento e 39% estão trabalhando normalmente.

Diante desses dados, deparamo-nos com um quadro de experiência do desalento. Na visceral convivência com o neoliberalismo em que mulheres negras vivem as condições de “mulas do mundo” (Collins, 2019), é estarrecedor, é de uma melancolia extrema saber que muitas profissionais perderam seus empregos e vivem desempregadas em um tempo terrível ou, mesmo que continuem em seus respectivos ofícios, estão expostas ao vírus, carecendo, assim, de cuidados, que lhes são subtraídos, pois, em suma, seu trabalho é cuidar dos outros e não exatamente de si.

E Lélia Gonzalez já nos convocava a entender a dinâmica e a sofrida vida das empregadas domésticas:

Mas é justamente na negra anônima, habitante da periferia, nas baixadas da vida, quem sofre mais tragicamente os efeitos da terrível culpabilidade branca. Exatamente porque é ela que sobrevive na base da prestação de serviços, segurando a barra familiar praticamente sozinha. Isso porque seu homem, seus irmãos ou seus filhos são objeto de perseguição policial sistemática (esquadrões da morte, mãos brancas estão aí matando negros à vontade; observe-se que são negros jovens, com menos de trinta anos. Que se veja também quem é a maioria da população carcerária deste país). Cabe de novo perguntar: como é que a gente chegou a este estado de coisas, com abolição e tudo em cima? (GONZALEZ, 2019, p. 245)

Os escritos de Lélia Gonzalez continuam atuais e nos chamam a atenção para a condição ainda muito precária da mulher negra brasileira, condição esta que se dilacera ainda mais na pandemia da COVID-19. O ideal de não semelhança, a indiferença para com a mulher negra faz com que o cuidado de si não exista para ela. Ainda que esse cuidado seja para o núcleo familiar interno (aos membros de sua família), também é para o externo (os membros da família à qual ela presta os seus serviços diários e domésticos).

Karina de França Silva Valle é Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Humanas e Sociais da Universidade Federal do ABC.

Nota:

1. Evento virtual promovido pelo IFUNICAMP. Zika Vírus e Coronavírus: Epidemias e Desigualdades, Quartas da Antropologia. Realizado em 26 ago. 2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=tm2UQhl7_T0&t=1702s

Referências:

COLLINS, Patricia Hill. Pensamento feminista negro: conhecimento, consciência e a política do empoderamento. São Paulo: Boitempo, 2019.

GONZALEZ, Lélia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. In: HOLLANDA, Heloisa Buarque de (Org.). Pensamento feminista brasileiro – formação e contexto. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2019. p. 237-256.

MBEMBE, Achille. Crítica da razão negra. São Paulo: N-1 Edições, 2018.

SENADO. Equiparação de direitos faz cinco anos, mas covid-19 agrava desrespeito a domésticas. Disponível em: <https://www12.senado.leg.br/noticias/infomaterias/2020/05/equiparacao-de-direitos-faz-cinco-anos-mas-covid-19-agrava-desrespeito-a-domesticas>. Acesso em: 30 ago. de 2020.

________________________________________


Este texto é parte de uma série de boletins sequenciais sobre a questão étnico-racial em tempos de crise que está sendo publicada ao longo das próximas semanas. Trata-se de uma ação conjunta que reúne a Associação Nacional de Pós-Graduação em Ciências Sociais (ANPOCS), a Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS), a Associação Brasileira de Antropologia (ABA), a Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) e a Associação dos Cientistas Sociais da Religião do Mercosul (ACSRM). Nos canais oficiais dessas associações estamos circulando textos curtos, que apresentam trabalhos que refletiram sobre epidemias. Esse é um esforço para continuar dando visibilidade ao que produzimos e também de afirmar a relevância dessas ciências para o enfrentamento da crise que estamos atravessando.

A publicação deste boletim também conta com o apoio da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC/SC), da Associação Nacional de Pós-Graduação em Geografia (ANPEGE), da Associação Nacional de Pós-Graduação em História (ANPUH), da Associação Nacional de Pós graduação e Pesquisa em Letras e Linguística (Anpoll) e da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional (Anpur).

Acompanhe e compartilhe!